Karina Bidaseca e o feminismo desde o Sul

Por um feminismo que busque recuperar as vozes silenciadas pelo feminismo hegemônico do Norte

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Karina Bidaseca, escritora, teórica, professora e ativista argentina graduada em Sociologia pela Universidade de Buenos Aires (UBA) e doutora em Ciências Sociais pela mesma instituição, é uma das nossas principais inspirações para a criação dessa página. Sim, foi em uma de suas incríveis aulas que resolvemos criar esse espaço para compartilhar sobre um feminismo mais nosso, desde o Sul.

Mas o que queremos dizer com “feminismo desde o Sul”?

Karina Bidaseca é coordenadora do programa “Sur-Sur” do CLACSO – Conselho Latino-americano de Ciências Sociais, que propõe a construção de pontes de intercâmbio no Sul, entre África, América Latina, Ásia e Meio Oriente (https://www.clacso.org.ar/sur-sur/presentacion.php?s=7&idioma=). Sua pesquisa de pós-doutorado versa sobre corpos na diáspora, em que discute as teorias sobre a pós-colonialidade desde a epistemologia do Sul.

Em seu livro “Perturbando el texto colonial. Los Estudios (pos)coloniales en América Latina” (Buenos Aires: SB, 2010), Bidaseca analisa, no capítulo 5, as lutas das mulheres no Sul.

Em seu trabalho, a autora explica que o feminismo descolonial desde o Sul representa uma ruptura epistêmica, já que denuncia e desconstrói a categoria universal “mulher” que é representada e pautada pela mulher branca, ocidental, heterosexual, burguesa, de classe média, urbana, educada e cidadã que luta contra o patriarcado, também entendido enquanto categoria universal.

Ou seja, o feminismo desde o Sul questiona o movimento feminista ocidental, liberal e burguês por não incorporar em suas reivindicações questões relacionadas ao racismo, à lesbofobia e ao colonialismo.

Segundo a autora, o movimento feminista hegemônico reproduziu as lógicas de opressão ao buscar unidade na luta contra o patriarcado porque ignorou a opressão de raça e de classe.

A teórica entende que a construção de um movimento feminista desde o Sul refere-se a uma política de enfrentamento ao conservadorismo do Norte para construir um conhecimento situado ao Sul, reconstruindo um mapa em ruínas.

Em entrevista a “TV Clacso”, a autora explica que a proposta dos feminismos desde o Sul busca recuperar vozes que foram silenciadas pelo feminismo do Norte (Assista aqui: https://m.youtube.com/watch?v=yVLzjLDAevw).

Segundo a autora:

“As mulheres que questionam esse feminismo são aquelas que observam ausências sintomáticas nas pautas feministas: o racismo, a lesbofobia, a colonização. Em torno da chamada para a unidade do feminismo para lutar contra a opressão universal do patriarcado, as feministas – que desconheciam a opressão de raça e de classe – adiaram e rejeitaram essas outras opressões, o que impediu de ver racializados, sexualizados e colonizados” (BIDASECA, Karina inMujeres blancas buscando salvar a mujeres color café: desigualdad, colonialismo jurídico y feminismo postcolonial“. Disponível em <http://www.scielo.org.mx/pdf/anda/v8n17/v8n17a4.pdf&gt;).

Para Bidaseca, podem ser identificadas três principais correntes feministas desde o Sul:

a) Edward Said, Spivak e a crítica pós-colonial: reconsidera a história de outro lugar, desde o colonizado, a fim de “recuperar as vozes baixas da história”. Questiona os saberes ocidentais consolidados, apontando suas contradições. Entende que o saber ocidental está colonizado e propõe sua descolonização, a fim incluir outras formas de gerar conhecimento;

b) Feminismos descoloniais: trata-se de uma discussão multidisciplinar que nasce e atravessa a América Latina e o Caribe, já que sua contribuição não se restringe ao feminismo, mas também influi nos estudos de dissidência sexual (queer), a epistemologia, a colonização/descolonização, a filosofia latino-americana e as teorias críticas de raça e sexualidade. Bidaseca ressalta, aqui, os estudos do feminismo negro;

c) Políticas de identidade e a perspectiva da interseccionalidade entre as categorias classe/gênero/raça/sexo/etnia: o movimento de mulheres negras denuncia o racismo e o elitismo do feminismo branco de segunda onda e a ausência de questionamentos a respeito do classismo, racismo e sexismo como experiências que se sobrepõem.

Conceito de “retórica salvacionista”

O conceito de “retórica salvacionista” foi cunhado pela autora para denunciar a narrativa imperialista do feminismo branco que se utiliza da retórica salvacionista em relação às mulheres de cor.

Segundo Bidaseca, o movimento feminista contemporâneo concentrou sua luta contra o patriarcado, acreditando que a eliminação da opressão sexista levaria à eliminação de todas as formas de opressão.

Contudo, como bem ressalta a autora, os movimentos feministas hegemônicos acabaram por reproduzir os mecanismos de opressão que pretendiam combater:

“Falar do patriarcado e não falar do racismo permite que as feministas brancas sigam atuando como exploradoras e opressoras”. (BIDASECA, Karina in “Mujeres blancas buscando salvar a mujeres color café: desigualdad, colonialismo jurídico y feminismo postcolonial”. Disponível em <http://www.scielo.org.mx/pdf/anda/v8n17/v8n17a4.pdf&gt;).

O conceito “retórica salvacionista” se refere, em suma:

  •  às contínuas tentativas de algumas feministas brancas de silenciar às mulheres de cor/não brancas ou de falar por elas;
  • às vozes “baixas” das mulheres são fagocitadas, representadas ou traduzidas por outras vozes;
  •  às diferenças das mulheres do “Terceiro Mundo” que foram apagadas ou submetidas a ilusão de que todas sofrem uma opressão comum.

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Fontes:
BIDASECA, Karina. “Cartografías descoloniales de los feminismos del Sur”. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/ref/v22n2/a11v22n2.pdf&gt;.
BIDASECA, Karina. “Experiencias del feminismo contra-hegemónico en América Latina”. Disponível em <http://www4.pucsp.br/neils/downloads/17-karina-bidaseca.pdf&gt;.
BIDASECA, Karina. “Mujeres blancas buscando salvar a mujeres color café: desigualdad, colonialismo jurídico y feminismo postcolonial”. Disponível em
<http://www.scielo.org.mx/pdf/anda/v8n17/v8n17a4.pdf&gt;.

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