Francesca Gargallo e o feminismo latino-americano

Para a escritora e feminista mexicana, o feminismo latino-americano surge para desconstruir o racismo, a heteronormatividade e a visão hegemônica do feminismo ocidental do que é ser mulher.

“Os golpes sistemáticos da prepotência branca e mestiça, a discriminação econômica, a marginalização social, a exclusão da educação formal e dos sistemas de saúde são temas da teoria feminista latino-americana contemporânea porque, por motivos sexistas, todas as mulheres sofreram e sofrem de algum modo, mas esses temas não foram enfrentados pelas feministas brancas em sua teoria racista e colonialista.”

Francesca Gargallo é escritora, feminista e professora mexicana que desenvolve seu trabalho no México e em toda a América Latina desde 1979. Como escritora literária, já publicou romances, poesia, contos e contos infantis. Em seus ensaios políticos, desenvolve principalmente a teoria do feminismo latino-americano e mexicano.

No seu artigo “Feminismo Latinoamericano”, Francesca afirma que o feminismo latino-americano surgiu enquanto teoria política na última década do século XX para desconstruir o racismo e a heteronormatividade que recaem sobre os corpos sexualizados das mulheres latino-americanas.

Segundo a escritora, o feminismo latino-americano é fruto de uma política anti-hegemônica, ou seja, surge para desconstruir as análises feministas ocidentais e produzir uma teoria feminista de acordo com as realidades locais das mulheres latino-americanas.

Como relata a escritora, o feminismo latino-americano:
– combate a destruição das culturas locais;
– critica a ocidentalização da América Latina;
– denuncia nossa herança racista e colonial;
– combate as práticas neoliberais.

Segundo Francesca,

“as mulheres que participam do movimento zapatista no México, as cocaleras na Bolívia, as indígenas amazônicas e andinas no Equador e Venezuela estão denunciando a relação entre colonialismo, o racismo e as desigualdades econômicas, desigualdades de oportunidade e de acesso aos serviços públicos que as marginalizam.”

Francesca observa que o colonialismo deixou marcas profundas na América Latina, que é, em sua maioria, um continente católico, com uma economia dependente do mercado externo e com uma estrutura social racista, patriarcal e discriminatória.

Para a escritora, o feminismo latino-americano encontra dificuldades para desconstruir a hegemonia ocidental porque esta se impôs como sinônimo de modernidade.

Diante desse panorama, o feminismo latino-americano dissemina a necessidade de nos libertarmos da perspectiva de universalismo cultural ocidental. Ou seja, sua proposta é se libertar da construção binária, polarizada e hierarquizada entre o que é ser masculino e o feminino para, assim, desconstruir o papel subalterno culturalmente designado às mulheres (e, principalmente, às mulheres latino-americanas).

O movimento feminista hegemônico ocidental criou uma categoria universal do sujeito “mulher”, pautado pelos anseios, costumes e vivências da mulher branca, ocidental, heterossexual e de classe média.

Segundo Francesca, a partir da experiência dessa mulher foi criada a teoria feminista “verdadeira” que chegou para a América Latina em meados do século XX por meio do debate liderado por mulheres brancas e elitizadas que levantavam questões ligadas à igualdade de gênero e à maternidade.

Esse movimento liderado por mulheres brancas e elitizadas foi duramente criticado por mulheres negras e indígenas, que denunciam a tendência colonialista do movimento feminista acadêmico e militante de inspiração europeia e norte-americana. Como bem ressalta a escritora, a cultura acadêmica se pauta pelo eurocentrismo e pelo ocidentalismo, o que impede a academia de reconhecer o valor da oralidade como um meio confiável de transmissão histórica.

Nesse sentido, questiona Francesca

“onde se situam as mulheres latino-americanas? Por acaso são ocidentais as centenas de mulheres assassinadas no México, Guatemala, Honduras e Colômbia?”

Feminismo latino-americano indígena

Francesca observa que a América Latina ainda não fez as pazes com o massacre dos povos originários ocorrido com a colonização e dominação europeia. Segundo ela, não se constatou qual era a situação da mulher antes e depois da dominação europeia, o que dificulta mensurar os efeitos da colonização sobre a mulher latino-americana.

A autora denuncia que a relação entre feministas acadêmicas e mulheres indígenas é fruto de um desconhecimento colonialista: as mulheres indígenas são consideradas as “outras”. Assim, as mulheres indígenas são vítimas não apenas dos homens, mas também sofrem com o racismo e a discriminação das mulheres brancas elitizadas e acadêmicas. Aliás, aqui a autora observa que a mulher indígena sofre uma dupla opressão, já que é discriminada por ser mulher e por ser indígena. Segundo Francesca,

“a condição de gênero e a condição indígena são, ambas, frutos de uma mesma tecnologia de hierarquização que confere sempre às mulheres e aos índios o lugar do derrotado, tirando sua voz e a possibilidade de se reconhecer positivamente em seus saberes que são incorporados nos saberes dos homens e dos ocidentais”.

Feminismo latino-americano negro

Aqui, a escritora cita o estudo da filósofa negra brasileira Sueli Carneiro, que denuncia, juntamente com outras pensadoras latino-americanas, que toda situação de conquista e dominação cria condições para a apropriação sexual das mulheres dos grupos derrotados para afirmar a superioridade do vencedor.

De acordo com a escritora, essa condição de superioridade se perpetua na violência contra as mulheres, sobretudo as negras, indígenas e pobres. Segundo Francesca,

“os feminicídios no México, na Guatemala e em outros países respondem a essa dinâmica de naturalização da violência masculina sobre as mulheres submetidas”.

Francesca relembra que a herança colonial permanece viva no imaginário social e adquire novas roupagens e funções numa ordem supostamente democrática que mantém intactas as relações de gênero segundo a cor, a raça, a língua e a religião.

Nesse ponto, a autora cita a filósofa brasileira negra Sueli Carneiro, que denuncia que a violação colonial perpetrada por senhores brancos contra mulheres indígenas, negras e mestiças está na origem de todas as construções sobre a identidade nacional, estruturando o mito da democracia racial latino-americana. No Brasil, culminou com:
– o desprezo do papel da mulher negra na formação da cultura nacional;
– a desigualdade entre homem e mulher é erotizada;
– a romantização da violência sexual contra a mulher negra.

Feminismo latino-americano lésbico

Para a autora, o feminismo latino-americano lésbico tem uma relação ambígua com a ocidentalidade.

Segundo Francesca, nem todas as mulheres lésbicas possuem uma visão anti-capitalista: essas mulheres estão inseridas no mercado de consumo, sobretudo no circuito turístico, e nem sempre se definem como feministas, já que muitas teóricas lésbicas acreditam que o movimento feminista ainda é muito marcado pela heteronormatividade.

Apesar desses obstáculos, a autora observa que o movimento feminista antirracista e o movimento lésbico compartilham, em geral, os seguintes ideais:
– ambos movimentos discutem a questão racial e sexual no contexto da violência contra a mulher;
– ambos debatem a questão racial e sexual também no estudo do que é democracia para as mulheres;
– ambos possuem o compromisso de evidenciar as desigualdades e os privilégios entre mulheres brancas, negras e indígenas. E entre as heterossexuais e as lésbicas.

Democracia?

Para Francesca, a democracia se apresenta como matriz civilizatória, mas se instalou desde uma perspectiva masculina, branca, heteronormativa e com privilégios de classe. Segundo a autora,

“Não há democracia sem abordar os sistemas que oprimem as mulheres e sem criticar a fundo a perspectiva ocidental do feminismo, pois este enquanto movimento urbano e acadêmico diminuiu seu impacto emancipador e libertador”

Para a autora, é impossível desassociar o patriarcado contemporâneo do racismo, o colonialismo e o capitalismo porque toda forma racional absoluta subordina necessariamente os pensamentos diferentes e cria hierarquias.

Para saber mais:
Francesca Gargallo – “Feminismo latinoamericano” – disponível em http://www.mapuche.info/wps_pdf/gargallo160308b.pdf
Francesca Gargallo – “Feminismos desde Abya Yala – ideas y proposiciones de las mujeres de 607 pueblos en nuestra América” – disponível em https://francescagargallo.files.wordpress.com/2014/01/francesca-gargallo-feminismos-desde-abya-yala-ene20141.pdf

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