AO MENOS 40 MENINAS FORAM MORTAS NO DIA 8 DE MARÇO EM UM ABRIGO NA GUATEMALA PELA OMISSÃO DO ESTADO!

No dia 7 e 8 de março, Guatemala vivenciou a chacina de ao menos 40 meninas no abrigo do Estado “Hogar Seguro Virgen de la Asunción” para crianças e adolescentes, de 0 a 18 anos, “vítimas de violência física, psicológica e sexual, deficiência leve, abandono, criança em situação de rua, dependência química, exploração sexual, comercial, laboral e econômica e adoções irregulares”, segundo a Secretaria de Bem-estar social.

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Manifestação de sábado 11 de março, a água da fonte da Plaza de la Constituoçao foi pintada de vermelho. Foto: Rocío Conde. Fonte: Nómada

Conforme as distintas notícias que circulam nos meios de comunicação, sobretudo independentes da Guatemala, e o relato da guatemalteca Ana Cristina Alvarado para “NÓSotras”, o abrigo já contava com distintas denúncias de maus tratos, violência sexual, problemas na alimentação, e outros tipos de violência. Inclusive, a Procuradoria de Direitos Humanos já havia solicitado o fechamento da casa e os meios de comunicação também já haviam divulgado as más condições do lugar, como casos de estupros praticados por alguns profissionais. (Ou seja, a situação do abrigo era uma informação pública e de conhecimento do Estado).

No dia 7, frente a essas péssimas condições, alguns adolescentes da casa – meninos e meninas – realizaram um motim em protesto e fugiram do abrigo. Frente a isso, a Polícia Nacional Civil (PNC) começou a procurá-los, os capturou e os retornou ao abrigo por meio de atos de violência. No abrigo, os separaram entre meninos e meninas, e os encerraram em um salão da escola:

 “Me pegou um e me disse que me colocasse de joelho, mãos na cabeça, me colocou a arma na cabeça. Me disse que a ele não importava que era mulher nem que fosse menor de idade” (Relato de uma adolescente divulgado por Nómoda)

 “Por volta da 1 da manhã, nos colocaram em um salão da escola. Logo, nos colocaram colchonetes, e nada mais. Um grupo de agentes da PNC de mulheres, nos fecharam com chave e estavam cuidando”. (Relato de una adolescente divulgado por Nómoda)

Diante da situação, as autoridades presentes no local informaram o ocorrido ao presidente da Guatemala (pois o abrigo está vinculado à Secretaria de Bem-estar da presidência), quem ordenou que os policiais continuassem na casa controlando a situação.

Na manhã do dia 8, as meninas, que seguiam trancadas, solicitaram ir ao banheiro, mas não as deixaram. Frente a isso, quebraram vidros e uma decidiu atar fogo em um colchão em forma de protesto. O fogo começou a se espalhar e pediram que abrissem as portas. No entanto, as autoridades presentes não as abriram imediatamente, e as deixaram presas enquanto o incêndio se estendia.

 “Pedíamos aos policiais que por favor nos levassem ao banheiro e os policiais não queriam deixar sair. Disseram que não se importavam. Minhas companheiras, com os mesmos colchonetes, fizeram uma mini casinha e ai fizeram suas necessidades.” (Relato de uma adolescente divulgado por Nómoda)

Uma das adolescentes presas no salão atou fogo em um colchonete. “Esse colchonete fez contato com os demais e foi assim que provocou o incêndio” (Relato de uma adolescente divulgado por Nómoda)

 “Pedimos ajuda, e uma agente disse: que sofram essas desgraçadas, que assim como fomos boas em fugir, éramos boas para aguentar a dor”. (Relato de uma adolescente divulgado por Nómoda)

Não há informações precisas de quanto tempo as meninas ficaram presas, mas pela magnitude da tragédia – ao menos 40 meninas mortas/queimadas – provavelmente ficaram bastante tempo fechadas, embora pediam para sair.

No momento as responsabilizações recaem sobre os policiais e a direção da casa, mas ninguém assume. Ainda há poucas informações sobre as investigações, sendo a maioria fruto do trabalho de jornalistas.

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Cartaz Ana Cristina Alvarado para a manifestação na embaixada da Guatemala em Buenos Aires.

“Nósotras”

A chacina das meninas na Guatemala poderia ter acontecido em outros países da América Latina, inclusive no Brasil. Sabemos que o Estado está cada vez mais ausente na execução de políticas, programas e projetos sociais, substituindo suas ações pela coerção e violência. É inadmissível que um Estado, ao invés de promover a proteção de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, responda com indiferença e violência. O que ocorreu na Guatemala também demonstra os crescentes atos de violação de direitos, principalmente da população mais empobrecida. As meninas, que estavam sob a tutela do Estado, por terem sofrido diferentes tipos de violência, seguiram sendo violentadas enquanto viviam no abrigo, uma violência tão grande que terminou em chacina.

Todo o ocorrido se torna mais indignante e simbólico quando olhamos para o dia: 8 de março de 2017. Enquanto nos organizávamos para a greve internacional de mulheres, ao menos 40 meninas morriam queimadas em um abrigo na Guatemala. Até quando “nósotras”, seremos queimadas e violentadas?

O que ocorreu na Guatemala não pode ser invisibilizado, a imprensa internacional não está divulgando, precisamos romper as fronteiras e cobrarmos a devida responsabilização do Estado!

#fueelestado #guatemala

 

Links com noticias e textos que circulam nos meios de comunicação da Guatemala:

O que gerou o motim das crianças e adolescentes:
https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1741455899213972&id=100000487365415
Sobre uma das meninas:
http://www.relato.gt/relatos/dicen-que-estas-muerta-pero-aun-no-lo-creo
Resumo do caso:
https://nomada.gt/estos-testimonios-apuntan-a-un-crimen-de-estado/
Relato das meninas sobreviventes:
https://m.facebook.com/notes/n%C3%B3mada/audios-y-nota-completa-una-polic%C3%ADa-le-dijo-a-las-ni%C3%B1as-que-se-aguantaran-el-fueg/1133268860116181/
Vitimas e idades:

https://www.facebook.com/elperiodico/photos/a.253353392831.136293.54031607831/10154591812417832/?type=3&theater

Ação do Estado
http://m.elperiodico.com.gt/pais/2017/03/12/las-respuestas-que-comprometen-a-morales-con-tragedia-en-hogar-seguro/
Mobilização para responsabiliar o estado: #fueelestado
http://www.prensacomunitaria.org/fueelestado/
Reflexões sobre o caso
https://www.plazapublica.com.gt/content/las-ninas-de-guatemala-no-son-un-poema-de-amor
Entrevista do Presidente da Guatemala
https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1744504588909103&id=100000487365415
Texto de crítica ao estado
https://cmiguate.org/misoginia-hogar-inseguro-e-irresponsabilidad-estatal/
Manifestações e mobilizações:
https://www.plazapublica.com.gt/content/gritos-para-pedir-justicia
http://barrancopolis.com/el-futuro-del-pais-se-hace-ceniza/

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